CHEGUE NA PAZ

11 de jun. de 2011

Drogas - uma guerra perdida?

Dos males da modernidade, talvez nenhum se equipare à ampla proliferação das drogas. Vidas individuais e famílias reduzidas a farrapo e escombro diante do flagelo do vício.


Numa esquina qualquer, de uma cracolândia qualquer, de uma cidade brasileira qualquer, um jovem acende um cachimbo de crack. Quantas vidas ainda serão reduzidas a farrapos, quantos destinos ainda haverão de se perder para sempre?



Para se entender a devastadora epidemia das drogas que assola a nossa sociedade, é preciso analisar o tema sob uma perspectiva mais ampla. Não se pode abordar o tema sem fazer referência às nossas fronteiras nacionais.
No cenário da geopolítica global, o Brasil ocupa uma posição de relevância na complexa rede internacional do narcotráfico. O país possui cerca de 15 mil quilômetros de fronteiras, com fiscalização muito deficiente ou mesmo inexistente e alguns países vizinhos elencados entre os maiores produtores mundiais de drogas.

Colômbia - 68 mil hectares - Maior produtor mundial de cocaína.
Peru - 59,9 mil hectares - Segundo maior produtor de cocaína. Seguida a tendência atual, deverá superar a Colômbia nos próximos anos.
Bolívia - 30,9 mil hectares - Terceiro maior produtor mundial de cocaína.
Paraguai - Segundo maior produtor mundial de maconha, atrás apenas do México.

O que leva os países andinos a produzir tanta droga são essencialmente questões econômicas. A maior parte dos que se dedicam aos cultivos não
são narcotraficantes, mas produtores rurais miseráveis, vislumbrando um lucro superior ao que obteriam caso se dedicassem a plantações tradicionais de hortifrutigranjeiros.

O processo de refino, transporte e comercialização da droga tem rendido aos narcotraficantes lucros astronômicos. Segundo a ONU, o tráfico de drogas movimenta anualmente em todo o mundo cerca de 500 bilhões de dólares. Grande parte da cocaína produzida nos países andinos atravessa as fronteiras rumo ao território brasileiro, seja para envio posterior à Europa e América do Norte, seja para distribuição no mercado nacional brasileiro.



O mapa ao lado mostra a extensão do limite fronteiriço do Brasil com os três maiores produtores mundiais de cocaína – responsáveis por praticamente 100% da produção mundial. O mapa permite visualizar a dimensão do problema que o Brasil enfrenta.




Este mapa mostra a dinâmica de distribuição da cocaína produzida pelos países andinos. Grande parte da droga segue para a América do Norte, enquanto outra parte segue, via território brasileiro, para a Europa. Uma crescente parcela da cocaína produzida se destina ao mercado consumidor brasileiro, que tem crescido consideravelmente nos últimos anos.

Num mundo globalizado, caracterizado pela fluidez das transações comerciais, o crime organizado segue suas atividades a pleno vapor. Para ilustrar a dificuldade em se deter a atuação do crime organizado transnacional, vejamos o exemplo dos E.U.A; que têm enfrentado graves problemas de segurança na sua fronteira com o México, envolvendo principalmente organizações ligadas ao narcotráfico. Apesar de dispor de uma polícia federal dedicada exclusivamente ao combate ao tráfico, e de ter os soldados mais bem treinados e equipados do mundo, eles tem falhado sucessivamente em evitar o ingresso de carregamentos de drogas em seu território. Até apelaram para a construção de um muro físico que separa a divisa entre os dois países, noite e dia vigiado por um forte esquema de segurança. Mas, vira e mexe, túneis por onde volumosos carregamentos de droga continuam passando livremente são descobertos.

Alguns especialistas sustentam que enquanto houver gente querendo consumir droga, os traficantes darão um jeito de garantir o lucro auferido com a venda. Se a superpotência mundial não consegue cuidar de uma fronteira seca com um único país, que é muito mais um corredor do que produtor de drogas, imagine a situação nas fronteiras brasileiras, com suas dimensões continentais. A fronteira brasileira com a Bolívia sozinha é mais extensa do que toda a faixa entre México e E.U.A.

Enquanto a fronteira entre México e E.U.A. é uma fronteira seca e desértica, a brasileira inclui a densa floresta amazônica, com seus mil rios, lagos e áreas pantanosas. O próprio ministro da Justiça reconheceu recentemente que há um “nível elevado de vulnerabilidade” nas nossas fronteiras. Outras autoridades apontam as fronteiras brasileiras entre as mais desguarnecidas do mundo.


Em 2010, foi lançado o livro-reportagem “Fronteiras Abertas – Um retrato do abandono da Aduana Brasileira”. O trabalho aborda como a falta de vigilância e fiscalização permite a entrada no país de armas, drogas, munições e produtos contrabandeados, além de facilitar o ingresso e a saída de criminosos, veículos roubados e a remessa ilegal de dinheiro que abastece toda rede de ilegalidades.



O livro – resultado de uma viagem de dez meses que os autores empreenderam por mais de 15.000 km de fronteira seca – narra um cenário de fronteiras sem dono.

A fragilidade de nossas fronteiras está diretamente relacionada à ampla circulação de drogas nas nossas cidades – uma triste e dura realidade com a qual convivemos e que nos desafia a buscar juntos alguma saída.

Um levantamento realizado pela Confederação Nacional dos Municípios em 2010 constatou que 98% dos municípios do país enfrentam problemas de circulação e consumo de crack. Segundo o Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas, a droga é hoje uma ameaça onipresente.
Já que a produção e comercialização das drogas encontram-se longe de serem adequadamente combatidas, vamos refletir um pouco sobre a outra ponta do processo do tráfico: o usuário.

O que é que leva uma pessoa a embarcar no risco suicida que as drogas representam? Os usuários podem ser agrupados em duas categorias básicas. De um lado, temos a categoria de usuários formada pela parcela “invisível”, excluída, esquecida e ignorada da sociedade. Moradores de rua e crianças e adolescentes em situação de risco social, que muitas vezes recorrem às drogas para amenizar a vivência de rua, e sua amarga rotina de fome e frio, abusos, privações, humilhações e violência. Nas décadas de 1980 e 1990, crianças de rua tinham na cola de sapateiro a principal droga de escolha.



Cola de Sapateiro
: Solvente e inalante, cujas substâncias básicas são o tolueno e o benzeno, depressoras do Sistema Nervoso Central. A aspiração da cola de sapateiro causa euforia, desinibição, alteração das percepções, insensibilidade à dor, fome e cansaço. Pode causar alterações na respiração, culminando com a morte do usuário.




Na época, políticos e governantes se fizeram de cegos diante do problema.

Disseram: “Não temos nada a ver com isso.”

A sociedade civil também se fez de surda, tratando com frio descaso o abandono social.

E dissemos: “Não é problema nosso, tampouco.”

Passaram-se duas décadas e o problema se agravou drasticamente.


Crianças e adolescentes ao relento e expostos às mazelas e durezas da vivência de rua, que ontem cheiravam cola, hoje se tornaram escravos de drogas muito mais devastadoras: o crack e o oxi.



Crack/Oxi: subprodutos da cocaína misturados a soda cáustica ou bicarbonato de sódio. São cinco vezes mais potentes que a cocaína, produzindo dependência com muita facilidade. A fumaça chega ao cérebro com velocidade e potência extremas, causando problemas respiratórios agudos. Produzem uma sensação de confiança, poder e excitação, seguida por um período de depressão, paranóia, com alucinações e delírios. Não raro, tornam o usuário violento e suicida em potencial. A expectativa de vida dos usuários gira entre quatro e oito anos.


Crianças e adolescentes que não chegarão à idade adulta. O tratamento para a recuperação de usuários é muito complexo, e o completo descaso e despreparo das instâncias públicas no trato da questão faz com que a reabilitação psicossocial seja uma possibilidade bastante remota. A fuga. A ilusão de identidade, de satisfação, de plenitude. A sensação de preencher o vazio, a fome e o abandono social.


Além dos moradores de rua, vítimas do abandono e descaso social, há uma outra categoria de usuários, formada por jovens que tiveram condições sociais privilegiadas. Ao contrário da cruel invisibilidade social que acomete as camadas que sobrevivem à margem da sociedade, estes jovens têm nome e sobrenome, possuem lares, álbuns de fotografias, pais e famílias. Tiveram acesso a boas escolas e a uma educação que teoricamente os deveria ter prevenido sobre a viagem geralmente sem volta que é o mundo do vício. Não foi a miséria material que os empurrou para o vício, mas uma outra forma de miséria, a existencial e afetiva.

Cristiane Gaidies, conhecida pelo apelido de “Maçãzinha”, era uma jovem de cabelos cor de mel, olhos expressivos e sorriso claro. Filha de uma psicóloga e um dentista, dormia até os 18 anos abraçada ao ursinho de pelúcia. Como tantas jovens de sua idade, gostava de ir a shopping centers, festas e shows de rock. Aos 19 anos, abandona os amigos e envolve-se com maconha e crack. A família tenta de tudo: diálogos, terapeutas, psiquiatras, mudanças, internação numa clínica especializada.


"Ela sumia de casa, ficava vagando pelas ruas fumando crack e depois reaparecia parecendo uma mendiga”, lembra a mãe. A ex-estudante de classe média torna-se aos 20 anos uma andarilha das ruas de São Paulo, uma nômade urbana, praticante de pequenos furtos para alimentar seu vício. Uma noite, tenta roubar um toca-fitas, exigido por um traficante que a abastece. É o preço da droga. O dono do veículo, um jovem empresário, presencia a cena, e do alto do seu apartamento no 12º andar dispara contra o estacionamento do prédio com o objetivo de afugentar os ladrões. O tiro, que era para ser de advertência, atinge em cheio a frágil jovem pelas costas. Ela ainda se arrasta por 30 metros antes de cair sem vida no asfalto manchado de vermelho. No bolso traseiro de sua calça levava um cachimbo de crack, feito de uma tampa de tubo de pasta de dente e uma antena oca de rádio de carro. A outrora adolescente de cabelos cor de mel, olhos expressivos e sorriso claro passou seus últimos dias num casarão abandonado, sujo e úmido, em companhia de prostitutas, travestis, mendigos e viciados.

Desde muito jovem Nelson dal Poggetto sabia o que era sofrer. Ao 12 anos começou sua aflitiva jornada pelo mundo das drogas, iniciando com álcool e maconha, para em seguida passar para cocaína e crack. Internado duas vezes, volta a fumar o cachimbinho de crack pouco tempo depois de receber alta. Durante as recaídas, troca celular e outros pertences por droga, mergulhando num ciclo de depressão e arrependimento. Aos 19 anos, antes de cometer suicídio, deixa um bilhete de despedida para a família: “Amei muito vocês e vou tranquilo. Isso vai ser um alívio”.


Adriana de Oliveira era uma garota linda e cheia de sonhos, tida por todos que a conheciam como uma pessoa meiga, doce, brincalhona e amante da vida. Era boa aluna na escola, e tocava piano. A jovem de 20 anos, de olhos azulados, pele morena e cabelos escorridos pelos ombros iniciava uma promissora carreira como modelo. Parecia ser uma dessas pessoas abençoadas, para quem nada dá errado na vida.


No entanto, a vida de Adriana toma um outro rumo após o namorado, um rapaz que cursa o 3º ano de direito e filho de um bem-sucedido advogado, a apresentar ao mundo das drogas.

Quão tênue e vulnerável é a linha que separa a experimentação e o uso recreativo do risco potencial que as drogas representam. Durante uma festa numa chácara, Adriana passa mal, sente dificuldades para respirar e apresenta um quadro convulsivo. Ao ser transportada para o pronto-socorro já é tarde demais. Mais uma precoce partida, aos 20 anos. Mais uma história interrompida pelo álcool, pela maconha e cocaína.

Diante das histórias de Adriana, Nelson, Cristiane e de tantos outros jovens, talvez seja hora de refletirmos sobre os valores que norteiam a nossa sociedade. Uma sociedade de consumo voraz, que transformou a busca do prazer imediato e da satisfação numa condição existencial essencial. Jovens desorientados, que buscam nos prazeres ilusórios uma forma de se libertar do peso de uma sociedade que desumanizou o homem e humanizou o dinheiro e os bens materiais. Tristes retratos do fracasso dos laços de sociabilidade familiar e comunitária. O desamor e o não-reconhecimento afetivo servindo de pilares para uma vivência vazia.

Que sociedade é esta que construímos, tão repleta de valores desvirtuados?

Talvez seja hora de, enfim, refletirmos com mais atenção sobre o impacto devastador da nossa atual programação televisiva, que golpeia especialmente, com cruel violência, crianças, jovens e adolescentes. Anúncios que associam a felicidade e o bem-estar ao consumo de bebidas alcoólicas (uma droga tão ou mais nociva que as ilícitas). Artistas com imenso apelo junto ao público infanto-juvenil servindo de “exemplo” para gerações de crianças e adolescentes. Empresários, artistas, publicitários e donos de emissoras de tv faturam bilhões. E nós arcamos com os danos e custos sociais decorrentes. Programas que massacram a subjetividade e anulam o senso crítico, banalizando e mercantilizando a existência.

“Vamos bisbilhotar”
“Pode espiar à vontade”
“Pra que educação, arte ou cultura?”
“Vamos banalizar a existência”
“Viva a futilidade!”

A torrente abusiva de publicidade que invade os lares e formata a mente de crianças e adolescentes desde a mais tenra idade. A mensagem impregnada em mentes indefesas, de que somos o que possuímos, e que viver se resume a consumir.

“Troque de carro, troque de celular, beba mais cerveja, etc. etc. etc...”

Uma vida centrada em bens materiais, uma existência sem um sentido ou propósito mais nobre. Nada melhor do que a televisão para preencher uma vida vazia, carente de aspirações elevadas e sem padrões morais firmes...

Não seria uma vida vazia de propósito, sentido e conteúdo uma porta de fácil entrada para o abuso do álcool, a maconha, a cocaína, o crack e todas as demais drogas que entorpecem a mente? Talvez seja hora de refletirmos sobre como a atual programação televisiva está contribuindo para solapar as bases éticas e morais necessárias para que crianças, jovens e adolescentes possam resistir às falsas promessas que as drogas (lícitas e ilícitas) oferecem.

Acreditar que as forças policiais conseguirão sozinhas algum dia resolver o problema das drogas é ignorar as causas reais que alimentam a degradação moral, e o tráfico e vício subsequentes.



O máximo que as forças policiais isoladamente conseguirão é prosseguir na sua heróica tarefa de “enxugar gelo”... entupindo cada vez mais e mais e mais as já desumanas e superlotadas prisões.



Para reverter a batalha contra as drogas, devemos buscar novos paradigmas sociais e existenciais. Buscar corrigir as causas estruturais que conduzem ao vício que alimenta o tráfico. Vejamos alguns componentes do nosso complexo mosaico social tão repleto de falhas, que precisam ser discutidas e sanadas caso queiramos construir uma sociedade soberana e livre:

Corrupção política - Graves desigualdades sociais - Baixa qualidade da Educação - Uso de drogas ilícitas - Criminalidade e violência - Consumo de bebidas alcoólicas - Pobreza moral e cultural - Individualismo exacerbado - Programação televisiva - Materialismo e consumismo.

Talvez seja hora de acordarmos para o fato de que a epidemia das drogas é apenas um dos sintomas de um problema muito mais amplo, que encontra sua origem no grave descaso com a Educação e a Infância no país.

O escritor José Saramago dizia: “Para se acabar com as velhas prisões, é necessário construir novas escolas.”



“No Brasil, a educação das massas ainda é uma utopia verde-amarela.”
Silviano Santiago




Na guerra contra as drogas, mais importante do que soldados e policiais são os professores e educadores. Uma educação plena, capaz de transmitir valores e virtudes, conduzindo cada criança em direção à sua plenitude. Uma educação capaz de banhar de sentido, propósito e bondade as vidas que iniciam sua jornada pelos caminhos do mundo.


O legítimo anseio que todos trazemos no peito, de descobrir por que existimos, e de revestir os nossos dias de beleza, poesia, propósito e dignidade.

O desejo de “ver com olhos livres.”

A “alegria dos que não sabem e descobrem.”


Há que se cuidar do broto, para que a vida nos dê flor e fruto. Trocar o amargo reprimir e remediar pela doçura de amar, ensinar, prevenir, e juntos descobrir.

“Só a participação cidadã é capaz de mudar esse país.” Betinho

Um outro mundo é possível.




Projeto “Compaixão e Cidadania”
Um espaço para refletirmos sobre temas essenciais.